quinta-feira, abril 7

o tempo que passa

é assustador como o tempo passa e nós não damos por isso...

às vezes apetece-me ter 10 anos de novo, para ter pressa que outros dias cheguem!

pressa de crescer (não valeu de muito), de conduzir (o sonho que era para mim), de ir para a universidade (só para vestir o traje, porque se nem com 22 sei o que quero ser, quanto mais com 10).

a verdade é que o tempo passa
vamos lutando para cumprir pequenos sonhos, esperamos por eles, vivemos.

e do nada acabam. e acabam, e passam e nunca mais, e quero ter 10 anos outra vez, para poder sonhar mais, para reviver tudo o que foi bom, para não cometer os erros que cometi, para achar que todo o dia é perfeito desde que no fim da escola dê para comer chocapic e ver desenhos animados (embora haja dias que ainda seja assim).

dou para mim a viver um tempo em que não gosto do que faço, não sei o que quero fazer, vivo, vejo os dias a passar, não sei o que me espera, mas o que me espera depende de mim e isso assusta-me...

vivo num tempo em que nada é certo, em que tudo muda do dia para a noite, não tenho pressa que os dias passem, não quero que eles passem porque temo o que aí vem!

e entretanto?

sorrio, pois o sol está a chegar à Dinamarca! :D

e tento prender em mim estes dias que tenho...




sábado, agosto 14

Tché! O Cubal cuia bué!

A simpatia dos cubalenses é sentida todos os dias. Recebemos sempre um “Obrigada sim” quando esboçamos um sorriso ou quando cumprimentamos com um “Bom Dia”, ainda que ensonados.

A pontualidade não está na ordem do dia aqui em Angola. Tudo depende se a luz do sol irradia logo pela manhã ou se fica escondida pela névoa. Se houver névoa não há crianças na rua. Para citar a irmã Teresa Romero, mulher de armas, (que superou um período 114 dias de cativeiro durante a guerra) no seu Portunhol: “É matemático, hasta que salga el sol no hay crianças!”

Na zona da missão, o trabalho das irmãs é verdadeiramente essencial para a população. Um trabalho de décadas (em alguns casos de uma vida) que garante a existência de condições mínimas de saúde, educação, emprego e cooperação comunitária. Sem isso como seria possível garantir alguma paz?

A dedicação das irmãs contagia. De realçar particularmente o exemplo da Avó Geni (Irmã Generosa) que se dedica a esta comunidade há mais de 50 anos e que hoje, com mais de 80, se continua a empenhar de tal forma que no primeiro almoço, em tom de desabafo e gracejo, dizia que precisa de umas férias para morrer, pois não tem tempo. Uma mulher de uma força extraordinária que foi entrevistada na semana passada para que o seu exemplo conste num livro, a ser editado em Espanha pelo jornal ABC, que relata a vida de 50 missionários espanhóis.

Com tanta iniciativa e trabalho, o que é que o Grão pode cá fazer durante dois meses? Tanta coisa que tivemos de seleccionar. Um complexo exercício de discernimento! Apresentamos em seguida o nosso plano de actividades.

O Hospital

O hospital e as instalações de infecto contagiosos e unidade de tuberculosos (Centro TB) são uma referência na província de Benguela pela qualidade da equipa médica (parcialmente mantida pelas irmãs). No entanto, estamos em África e as carências a nível estrutural e material são imensas para acompanhar tanto a afluência como o estado de gravidade de alguns doentes.

Nesta área (infecto-contagiosos e tuberculose) comprometemo-nos com animação dos doentes, em especial das crianças internadas e participação na missa do centro TB. A importância deste “SÓ estar” foi-nos demonstrada na primeira visita quando um dos doentes nos disse “ A vossa visita é, para nós, mais importante do que um comprimido”.

A Escola, os cursos e as acções formativas

Na escola, as Irmãs Teresianas conseguem formar mais de 1500 alunos (do pré-escolar ao 9ºano) divididos em 3 turnos.

O Grão foi imediatamente solicitado para dar cursos de informática e de inglês a formandos que posteriormente possam transmitir os conhecimentos adquiridos e fazer, no futuro, germinar o Grão deixado. O ensino destas matérias é praticamente inexistente no Cubal e, até agora, a maior dificuldade foi ter de seleccionar alunos. De salientar a necessidade de ressuscitar uma sala de informática - cemitério de computadores – para tornar o curso possível. Tendo em conta que nunca tínhamos aberto um computador, conseguir pôr 8 a funcionar foi uma proeza!

Vamos também realizar um curso de Contabilidade e Gestão para a administração do Hospital e para outros trabalhadores da missão interessados.

Programámos ainda acções de formação esporádicas que irão incidir sobre temáticas como “O papel da mulher na sociedade”, “Formação cívica” e “Alimentação e Saúde Materno-Infantil”. Estas acções resultaram daquilo que foi a nossa avaliação conjunta das maiores necessidades da comunidade.

Ainda neste campo, o Grão está a desenvolver uma actividade importantíssima de apoio aos “apadrinhados” que são crianças carenciadas com histórias de vida difíceis e muitas dificuldades de aprendizagem. Iremos acompanhá-las dando explicações duas vezes ao dia, três vezes por semana.

Outras actividades

E não acabamos por aqui. Temos ainda o apoio à pastoral animando duas missas de Domingo (a das crianças e a dos jovens) e apoiando grupos como os escuteiros.

De modo a sensibilizar para a importância de uma comunidade limpa e ruas sem lixo (um grave problema por estas bandas) estamos a planear um “Dia Cubal Limpo” promovendo uma competição saudável entre os grupos de jovens existentes com o intuito de promover a recolha de lixo.

É de grande relevo a intervenção do Grão nas oficinas de carpintaria da Missão, com apoio na organização e estrutura deste projecto comunitário. Serão aqui desenvolvidas acções formativas, inventariação dos materiais e apoio através da projecção de móveis modelares para serem posteriormente produzidos.

De realçar por fim o esforço que a Carolina e o Tiago estão a fazer para acompanhar todos os projectos de obras que há na missão e para conceber novos projectos cuja necessidade de execução é prioritária.

Trabalho para fazer não falta e ainda muito ficou por dizer.

No dia de folga e apesar do isolamento em que estamos, tentamos aproveitar ao máximo a beleza da paisagem circundante, o rio com jacarés, a companhia uns dos outros e da comunidade que nos envolve.

Aiêé?! Tché! O Cubal cuia bué!


domingo, agosto 8

A chegada ao Cubal

Finalmente chegados ao Cubal. Já tivemos tempo e para planear a missão. Entretanto tivemos recepções extremamente emotivas e experimentámos todas as actividades que as Irmãs Teresianas desenvolvem cá (e não são poucas).

Neste post, focaremos os primeiros dias.

A viagem de comboio ficou adiada. Com os nossos 200kg de bagagem, viajar numa carruagem da linha de Benguela seria quase um acto de loucura. Felizmente, e mais uma vez com uma sorte incrível, conhecemos em Benguela dois engenheiros portugueses que nos ofereceram boleia a nós (e às nossas bagagens) até ao Cubal. Aproveitamos para agradecer toda a simpatia do Pedro e do Américo!

E assim seguimos nós durante duas horas numa estrada praticamente sem curvas e com uma paisagem incrível. Uma savana seca cheia de embondeiros e pedras graníticas cujas formas e disposição criam formações rochosas bastante engraçadas.

Fazer esta viagem em duas horas não seria possível há um ano atrás. Só em 2009 a estrada de Benguela ao Cubal foi alcatroada. Até lá existia uma estrada de terra batida e os 150km que separam as duas cidades levavam um dia inteiro para serem percorridos.

O Cubal. A primeira imagem que fica é da estação de comboios e dos armazéns, que outrora estavam cheios de cereais produzidos na região que eram aí armazenados e posteriormente levados na linha de comboio para fornecer não só a província como todo o país.

Anos depois da guerra terminar, o Cubal ainda está parcialmente abandonado e muitos bairros encontram equilíbrio diário através do incrível trabalho das irmãs na missão.

A missão é a 3km da cidade e está localizada junto de bairros mais desfavorecidos. As Irmãs Teresianas que residem aqui no Cubal dedicam a sua actividade a uma escola, a um hospital (que é um hospital de referência na província e que conta também com um centro paradoenças infecto-contagiosas), a apoiar oficinas de mecânica, carpintaria e actividade agrícola para dar emprego à população e ao serviço social (que inclui explicações a crianças com vidas mais complicadas “os apadrinhados”).

Trabalho para fazer há muito, mesmo com a quantidade de horas que as irmãs se dedicam à comunidade. A estrutura de apoio que montaram é incrível, no entanto as carências são imensas.

O Grão tem vivido na ânsia de concretizar, de se envolver e de viver aquela que esperamos que seja a primeira missão no Cubal.

quinta-feira, julho 29

6 pulas num machimbombo





28 de Julho - a viagem até Benguela...
Aterrámos em Luanda pelas 6 da manhã!
O Padre Casimiro estava já à nossa espera com a sua pickup branca à saída do aeroporto enquanto nós os 6 (os grãos e a nossa querida Graça - leiga para o desenvolvimento) passeávamos os nosso cerca de 200kg de bagagem!Seguimos para a Macon para apanhar o último autocarro! Apesar do caótico trânsito de Luanda, conseguimos chegar a tempo! E enfiar os baús na mala do auto-bus?!

E assim começa a nossa épica viagem num machimbombo velho, sujo, azul, branco e chinês com a promessa de que chegaríamos a Benguela às 14 da tarde!!

O tempo foi passando, a paisagem mudando..e uma hora e meia depois estávamos à saída da cidade de Luanda!!

Ficam aqui alguns momentos marcantes da viagem:

- primeira paragem: para urinar..no meio do nada! Entretanto aparece mais um passageiro com os seus haveres que
incluíam - cadeiras de plástico, bacias enormes, malas, gerador, fogão, entre outras coisas. Bom, sobrou para nós que tivemos de trazer malas para dentro do autocarro e como nós outros trouxeram panelas e bacias para dentro que se foram apilhando no corredor do machimbombo.
As crianças vinham a correr para o autocarro com as bacias na cabeça e as mães com os bébés nas costas (bastante querido!)

- segunda paragem: mercado de coisas.
Tudo se vendia. Era uma aldeia ao lado da estrada. A actividade da população é vender coisas para os viajantes (as estações de serviço).
- o Cláudio - conhecemos um senhor novo bastante simpático de Luanda que costuma ir para Benguela em trabalho. Foi muito atencioso connosco e explicava tudo sobre Angola, sobre cada paragem. E foi ele que nos introduziu à Ginguba - uma espécie de amendoim, mas 100 vezes melhor!Tinham barraquinhas de madeira e vendiam desde coca-cola, a fruta, a pão, a óleo de palma, roupa, panos e tudo mais!


- ao fim de 10 horas, depois do sol se pôr, chegámos a Benguela!

Para quem nunca esteve em África a aproximação a Luanda pelo avião é impressionante.... um mar de castanho, em que não se distinguem as casas, as ruas, os passeios.... Choca. Já em terra firme, a imagem dos bairros desde o aeroporto até à Macon é difícil de descrever. Uma amálgama de lixo, trilhos gravados pela água na época das chuvas, um sobe e desce de construção que se vai espalhando a perder de vista e toda uma cidade em obras com slogans de construtoras em cada canto.

Saindo da cidade, o castanho impera, mas na cor da terra e nos embondeiros que surgem aqui e acolá com o mar como pano de fundo. A paisagem é diferente de tudo aquilo a que nos acostumámos. Há oásis que nos surpreendem no meio desta secura africana, em que o verde é senhor e prende o olhar porque tudo é fértil.
Já na província de Benguela a terra é branca, as casas são de terra, os telhados são da mesma cor....... e ao fundo o mar com um bola de fogo a pairar! É verdade que o sol em África é maior. mais intenso, as cores são diferentes!!

E todo o país parece ser assim. Uma surpresa a cada momento.

Ao longo da nossa viagem vimos paisagens lindíssimas e muitos sorrisos. As pessoas vêm ao nosso encontro e mostram-se curiosas em relação a nós, porque estamos cá e porque viajamos assim...... Não é normal os "pulas" no "machimbombo"!!

As Leigas!!! Em dois segundos sentimo-nos em casa!! Uma sensação de "regresso a casa", numa casa que não conhecemos com pessoas que não conhecíamos! Foram incansáveis e o nosso porto de abrigo.

Com elas terminámos o dia, com um belíssimo jantar e uma maravilhosa partilha de experiências de quem abdicou do conforto, da qualidade de vida material que conhecemos, em prol deste povo de Benguela, nos bairros mais carenciados da cidade.....
Como diz a Sónia, "o céu aqui está mais próximo da terra"

A Partida

Chegou o dia.

27 de Julho de 2010 às 17h chegámos ao aeroporto do Porto. Tínhamos ainda algum tempo para as despedidas das pessoas mais queridas. E foram tantas aquelas que nos vieram dar um abraço ao aeroporto! O Grão em peso estava lá (faltou a Inês Alencoão que estava nesse momento a entrar em delírio com o último exame que seria no dia seguinte em Lisboa - e passou! PARABÉNS!).

A azáfama foi muita. E já havia começado bem cedo nesse dia, com o verdadeiro filme Consulado de Angola no Porto, que por extrema simpatia decidiu dar-nos os vistos mesmo mesmo à última da hora. Às 16h, mais precisamente. Viram a hora a que chegamos ao aeroporto?! Pois...enfim, sem cometários. Tudo se resolveu!

Entre abraços e muita emoção da partida, a união foi muito presente. Num abraço revimos todo um ano de enorme esforço e centramos o nosso objectivo, através da magnífica força das palavras do André:

"Por que vão? Para quem vão? Lá só se vão ter aos 5 e vão ser a família uns dos outros. Quando estiverem em baixo olhem para cima e procurem o Pai. É por Ele que vão."

Muitos sorrisos. Algumas lágrimas. Um turbilhão de emoções. Uns minutos depois estávamos só os 5, diante da porta de embarque, em silêncio. Em Paz. Prontos para partir cheios de confiança.

(Aproveitamos para fazer uma breve apresentação dos 5 Grãos, para aqueles que não conhecem:




Zé Maria, 24 anos, do Porto, estudante de Farmácia, responsável pela Saúde e Segurança em Missão;
Teresinha, 19 anos, do Porto estudante de Direito, responsável dos materiais de Missão;
Tiago, 25 anos, do Porto, engenheiro civil, líder do Grupo de Missão;
Carolina, 28 anos, de Guimarães, arquitecta, vice-líder e tesoureira de Missão;
Raquel, 21 anos, de Braga, estudante de Gestão, responsável pela Oração Comunitária em Missão.)